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YURI URLICHICH: O GLONASS É ABSOLUTAMENTE COMPETITIVO

Recentemente na composição do agrupamento orbital do sistema de navegação russo GLONASS foram integrados mais três satélites lançados em finais de dezembro. Numa entrevista, concedida à revista Air Fleet, este evento comenta o Diretor Geral do Instituto de Construção de Instrumentos Espaciais da Rússia, projetista-chefe do sistema de navegação via satélite GLONASS, Yuri Urlichich.

– De que importância se reveste a integração dos últimos engenhos espaciais no sistema e como este evento aproxima-nos do objetivo almejado de o GLONASS se tornar mais acessível a cada homem no nosso planeta?

– Em finais do ano passado, três engenhos espaciais foram lançados à órbita. Os satélites foram colocados nas suas posições orbitais, ativados e começaram o seu funcionamento no sistema. Hoje, todos nós já podemos aproveitar o GLONASS no volume de serviços por este oferecidos. Trata-se dos serviços de navegação e de sincronização de tempo.

– O GLONASS russo é competitivo?

– Absolutamente. Uma das nossas maiores vantagens concorrenciais consiste em que, de fato, todos os nossos equipamentos são adotados a dois sistemas, isto é, eles aproveitam, tanto o sistema GLONASS como o GPS. Os nossos equipamentos se mostram mais resistentes a quaisquer interferências, assim como a quaisquer impactos de natureza tecnogénica ou política.

– E quanto à acessibilidade?

– Hoje, podemos dizer que se alguns consumidores específicos aproveitam unicamente o GLONASS em vez de utilizar uma aparelhagem combinada, adotada aos sistemas GPS e GLONASS, para eles a cobertura do território da FR será de 100 por cento e da superfície do globo terrestre cerca de 90 por cento. Aqui, gostava de sublinhar que, na realidade, não se trata somente da própria superfície do globo terrestre, mas igualmente do espaço de dois mil quilômetros acima desta, ou seja, o sistema é aproveitado por aeronaves, engenhos espaciais de órbita baixa, veículos lançadores e motores de lançamento. Se os consumidores utilizam os equipamentos combinados, os serviços de navegação são acessíveis em qualquer ponto do nosso planeta e 24 horas por dia.

– Conte um pouco sobre o GLONASS e as missões que este permite cumprir.

– O sistema global de navegação GLONASS é um sistema da segunda geração que permite de um modo global e instantâneo, independentemente das condições meteorológicas determinar as coordenadas e a velocidade, assim como proporciona o serviço de sincronização de tempo a várias categorias de consumidores mediante a recepção dos sinais de satélites de navegação.

A informação sobre as coordenadas, velocidade e tempo pode ser aproveitada por consumidores de navegação para a solução de um vasto leque de tarefas práticas, tais como a gestão e monitoramento dos transportes terrestres, aéreos, navais e espaciais, roteamento de veículos, organização e efetivação das obras geodésicas e de construção, sincronização do funcionamento dos sistemas de comunicações.

A constelação do GLONASS é um segmento espacial do sistema. O agrupamento orbital completo vai integrar 24 satélites. A estrutura do posicionamento orbital foi determinada com vista a garantir os serviços de navegação globais e contínuos oferecidos a um número não limitado de consumidores que se encontrem na superfície terrestre, no espaço aéreo ou espacial até a altitude de dois mil quilômetros. Os engenhos espaciais ficam posicionados em três planos orbitais, respectivamente oito satélites em cada. A órbita é circular, a altitude de vôo é de 19 100 quilômetros, a inclinação do plano das órbitas é de 64,5 graus.

Atualmente, o agrupamento orbital do GLONASS integra 20 satélites.

– Por que são 24 satélites? Explique, se possível, qual é o esquema de distribuição de engenhos.

– Consideramos que o esquema hoje aprovado permitirá a 24 satélites garantir uma cobertura contínua de 100 por cento de toda a superfície do globo terrestre. Na realidade, da mesma forma foi estruturado o sistema americano NAVSTAR, mais conhecido como o GPS. Os 24 engenhos espaciais proporcionam a cobertura acima referida. A diferença consiste em que os americanos optaram por uma distribuição uniforme em seis planos e nós – em três planos. Além disso, foi decidido igualmente aproveitar a vantagem oferecida por um número maior de satélites. Hoje, os americanos têm 30 satélites operacionais na órbita. Os projetistas do sistema Galileo em vias de desenvolvimento anunciaram que este igualmente iria integrar 30 satélites na órbita, sendo 27 destes operacionais. Para fazer com que as vantagens concorrenciais do nosso sistema sejam evidentes, foi tomada a decisão de seguir o mesmo caminho. Por isso, a constelação, em vez de 24, irá integrar um número maior de satélites.

– Qual é a vida útil dos satélites russos e quão dispendiosa é a sua substituição? Pois, é claro que a necessidade de tal substituição é eminente.

– Com efeito, os engenhos espaciais são substituídos Os nossos satélites de modelos anteriores tiveram o prazo operacional garantido de 3 anos tendo funcionado, em média, uns 4 anos ou um pouco mais. Hoje, lançamos os satélites GLONASS-M cuja vida útil é de 7 anos. Isto nos proporciona a possibilidade de substituições menos frequentes. Atualmente, estamos aumentando a constelação, desenvolvemos novos satélites GLONASS-K. Os testes destes engenhos nos bancos de ensaio e em vôo serão iniciados em 2010.

– Qual é a situação com a produção de receptores do GLONASS?

– Hoje muitas companhias comerciais e empresas públicas estão envolvidas no desenvolvimento de equipamentos de navegação para os consumidores. Pode-se dizer que neste domínio se registra um crescimento impetuoso, um verdadeiro “boom”.

– Qual pode ser a aplicação deste instrumento na vida quotidiana? Através do GLONASS será possível saber onde está a nossa criança? Quando serão reais tais serviços como a utilização de pulseiras electrónicas de monitoramento de presos?

– O GLONASS proporciona aos consumidores a possibilidade de determinar as coordenadas do local em que se encontram adultos ou crianças. A solução mais viável de transmissão das informações nas grandes cidades é o aproveitamento das comunicações celulares.

A tarefa mais complicada hoje é o desenvolvimento de microdispositivo que receba, tanto os sinais do GLONASS como do GPS. Tal dispositivo deve consumir muito pouca energia para que seja possível integrá-lo num celular ou num dispositivo especial chamado “tracker”. Hoje, os cientistas russos estão na fase final de solução deste problema. As coleiras GLONASS/GPS para animais domésticos, desenvolvidas recentemente, funcionam conforme o mesmo princípio. Espero que os “trackers” para as crianças sejam disponíveis num futuro próximo.

Agora, no que diz respeito a pulseiras eletrônicas para monitoramento de presos. Concordo que manter um homem na prisão por um crime pouco grave, de um lado, não é humano enquanto, de outro, constitui um pesado fardo financeiro suportado pelo Orçamento do Estado. Em princípio, muitos países já aproveitam os sistemas de navegação para monitorar os presos. Atualmente, mantemos as negociações com o Serviço Penitenciário Federal com vista a determinar os requisitos técnicos a que devem atender os equipamentos produzidos para este Departamento. Neste caso, há dois problemas. O primeiro diz respeito a aspectos organizacionais e legais. Claro que a solução deste cabe ao Serviço Penitenciário Federal, e no que se refere aos aspectos técnicos, não duvido que todos os problemas serão resolvidos.

– O Senhor mencionou o sistema Galileo. Aliás, gostava de saber em que fase está o processo desenvolvimento de outros sistemas de navegação, por exemplo, do sistema chinês “Beidou”?

– O sistema Galileo é desenvolvido pela Europa. Infelizmente, hoje, os europeus estão em atraso de uns 8 anos. Por que digo infelizmente? Porque do ponto de vista dos consumidores quanto maior for o número dos sistemas disponíveis, tanto mais altas serão a precisão, a segurança do equipamento e, respectivamente, a qualidade. Bem parece que este atraso vai sendo acumulado. Os europeus anunciaram que o seu sistema Galileo seria operacional em 2013. Porém, acho que isto vai demorar um pouco mais. Quanto ao sistema chinês, hoje, o “Beidou” tem um único satélite em órbita, sendo este demonstrador. Os europeus, pelo menos, têm dois satélites.

– Mas, hoje, os especialistas chineses são muito ativos na exploração espacial, preparam-se para desembarcar na Lua, portanto, é possível que muito em breve eles sejam concorrentes da Rússia igualmente no domínio de navegação?

– Quando se trata de um sistema de navegação, acho eu que a realidade é a seguinte. Há dois sistemas, o GLONASS e o GPS, já existentes e operacionais. Todo o resto não é tão fácil. Com efeito, para criar uns sistemas semelhantes é necessário empenhar recursos enormes, antes de tudo, intelectuais. Por exemplo, o lançamento de um segundo demonstrador europeu evidenciou que eles enfrentam uma série de problemas técnicos relacionados com a compatibilidade eletromagnética com o satélite.

– Quem são clientes potenciais do GLONASS no mercado mundial?

– São muitos os países que querem aproveitar o sistema GLONASS, se entendi corretamente o que o Senhor tinha em vista. Neste domínio desenvolvemos a cooperação com a Bielo-Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e várias outras repúblicas da antiga União Soviética. Ademais, é patente o interesse de muitos outros países em cooperação neste domínio. Em particular, trata-se dos países do mundo árabe e países da América Latina. Por quê? Porque a qualidade dos dois sistemas é sempre mais alta de que a qualidade de um só sistema.

Os nossos parceiros estrangeiros compreendem: ou vão depender de um único sistema de navegação baseando neste toda uma série de tecnologias de importância vital, ou vão utilizar os equipamentos que recebem os sinais de vários sistemas. Optando por última variante, eles diminuem substancialmente os eventuais riscos políticos e técnicos. Acho que os consumidores de muitos países vão preferir a independência nesta questão.

– Que preço a Rússia pretende cobrar a outros Estados pela conexão ao GLONASS?

– Conforme o Decreto do Presidente da Federação da Rússia de 17 de maio de 2007, o acesso aos sinais de navegação civis do sistema de navegação GLONASS é concedido aos consumidores nacionais e estrangeiros numa base não remunerada e sem quaisquer restrições. Portanto, nem se pode tratar de pagamento algum pelo aproveitamento dos sinais do sistema GLONASS.

/ N2 2009